// Estar com Deus: Junho 2014

quinta-feira, 19 de junho de 2014

O Apóstolo Paulo, Charles Spurgeon e o Declínio do Evangelho

O Evangelho como o conhecemos hoje é o mesmo de 20 anos atrás? Será o mesmo daqui a 20 anos? Afinal, o que mudou? Os homens? O Evangelho? A Igreja?
Ou terá sido apenas um erro de interpretação dos nossos queridos teólogos de 50 anos atrás, estando nós, hoje, com a razão em detrimento da opinião deles?
O Apóstolo Paulo e Spurgeon acabaram por tocar na “ferida espiritual” de muitos líderes e cristãos descompromissados com o verdadeiro Evangelho, que gera desconforto… Mas, gera vida abundante.
Descubra a opinião desses dois grandes teólogos acerca do Declínio do Evangelho.
“Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho, o qual não é outro, senão que há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo. Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue outro evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema.” (Paulo de Tarso - Gálatas 1:6-8).
“A apatia está por toda a parte. Ninguém se preocupa em verificar se o que está sendo pregado é verdadeiro ou falso.um sermão é um sermão, não importa o assunto; só que, quanto mais curto, melhor.” (Charles Haddon Spurgeon – “Preface”, The Sword and the Trowel (1888, volume completo), p. iii.).
Estas duas citações feitas por homens que por toda a sua vida teológica, religiosa e devocional foram absolutamente sérios em suas condutas e tratados, embora tenham sido feitas há muito tempo, e em épocas totalmente distintas, nos impelem a uma reflexão inevitável, ou seja, estaria mesmo o Evangelho de Jesus Cristo se diluindo ou sendo por alguns, talvez muitos, diluído?
Este assunto sempre gerou muita discussão e não poucas horas de reflexão por aqueles que se propuseram a estabelecer paradigmas acerca do mesmo, contudo uma coisa não se pode negar: essa abordagem é hoje tão ou mais necessária que nas épocas em que as citações acima foram verbalizadas.
O apóstolo Paulo, com grande coragem e determinação interpela aos gálatas por qual razão estes estavam abandonando a pureza e legitimidade do evangelho de Cristo para seguir a outro, o qual, como disse Paulo, não é outro, mas sim perturbações e desvios de homens.
Já naquela longínqua data de fundação da igreja cristã se observava o desejo do coração do homem de fazer de suas vãs filosofias caminhos para a salvação, o que por conclusão lógica não se pode acontecer.
A maioria, pra não dizer todos os escritores do Novo Testamento (pra não citar os do Antigo Testamento) teve que lidar com situações similares. Situações que sempre foram geradas pelo coração pecador do homem e que tinham como objetivo deturpar ou mesmo desmerecer o sacrifício de Cristo em prol da elevação e proeminência de seus conceitos falhos, controversos e condenadores.
Os que desejam estabelecer qualquer outro caminho ao céu além daquele revelado pelo Evangelho de Cristo estão miseravelmente errados, o apóstolo imprime aos gálatas e a todos os que abdicam do puro evangelho a devida sensação de sua culpa por abandonar o caminho da justificação segundo as Boas novas, embora a repreensão seja feita com ternura e os retrata como arrastados a isso pelas artes de alguns que os perturbavam, sem contudo desculpar-lhes da falta de fidelidade. Devemos ser fiéis quando repreendemos a outros, e dedicar-nos, não obstante, a restaurá-los com o espírito de mansidão.
Alguns desejam instalar as obras da lei, e outras tantas práticas alheias e obscuras à luz do evangelho no lugar da justiça de Cristo, e deste modo, corrompem o cristianismo. O apóstolo denuncia com solenidade, por maldito, a todo aquele que tente por um fundamento falso, seja ele qual for, ou por meio de práticas distintas dos padrões bíblicos. Todos os outros evangelhos, fora do da graça de Cristo, embora sejam mais lisonjeiros para o orgulho da justiça própria, ou mais favoráveis para as luxúrias mundanas, são invenções de Satanás. Enquanto declaremos que rejeitar a lei moral como regra de vida tende a desonrar a Cristo, e a destruir a religião verdadeira, devemos também declarar que toda dependência das boas obras para a justificação, sejam reais ou imaginárias, sejam pragmáticas ou que busquem a satisfação dos desejos carnais e infratores do coração humano é igualmente fatal para os que persistem nelas. Assim, sejamos zelosos das boas obras, tenhamos cuidado de não colocá-las no lugar da justiça de Cristo, e não propor nada que possa trair o próximo ou a nós mesmos com um engano tão horrendo.

O Posicionamento de Spurgeon Acerca do Declínio do Evangelho

Já no final do século XIX, Spurgeon vislumbrou essa tendência de se trazer diversão e outras coisas que são absolutamente alheias ao evangelho para dentro da igreja. Em meio A Controvérsia do Declínio, em 1889, Spurgeon proferiu as seguintes palavras em pregação:
“Creio não estar procurando erros onde o erro não existe; mas não consigo abrir os olhos sem ver coisas sendo feitas em nossas igrejas que, há trinta anos, não eram nem sonhadas.
Em termos de diversão, os professos têm avançado no caminho do relaxamento. O que é pior, as igrejas agora pensam que sua responsabilidade é entreter as pessoas. Discordantes que costumavam protestar contra a ida a um teatro, agora fazem com que o teatro venha a eles. Muitos [templos de igrejas] não deveriam receber licença para exigir peças teatrais? Se alguém fosse sério em exigir obediência às leis, não teriam de obter uma licença para que suas igrejas funcionassem como teatros?
Tampouco ouso falar a respeito do que tem sido feito nos bazares, jantares beneficentes etc. Se esses fossem organizados por pessoas mundanas decentes, não poderiam alcançar melhores resultados? Que extravagância ainda não foi experimentada? Que absurdo tem sido grande demais para a consciência daqueles que professam ser filhos de Deus e que não são deste mundo, mas chamados a andar com Deus em vida de separação?
O mundo considera as altas pretensões de tais pessoas como hipocrisia; e, de fato, não conheço outro termo melhor para classificá-las. Imaginem aqueles que gostam da comunhão com Deus brincando de tolos, com roupas teatrais! Falam acerca do lutar com Deus na oração em secreto, mas fazem malabarismo com o mundo em uma jogatina irreconciliável. Será que isso está correto? O certo e o errado trocaram de lugar? Sem dúvida, existe uma sobriedade de comportamento que é coerente com a obra da graça no coração, e existe uma leviandade que indica que o espírito maligno está em supremacia.
Ah! Senhores, pode ter havido uma época em que os cristãos eram por demais precisos, mas não é assim em meus dias. Pode ter existido uma coisa espantosa chamada rigidez Puritana, mas eu nunca a vi. Agora estamos bem livres desse mal, se é que ele existiu. Já passamos da liberdade para a libertinagem. Ultrapassamos o dúbio e caímos no perigoso, e ninguém pode profetizar onde haveremos de parar. Onde está a santidade de Deus hoje?… Ela não passa de algo turvo, tal qual um paio que fumega; é mais um objeto de ridicularização do que de reverência.
Será que o grau de influência de uma igreja não pode ser medido por sua santidade? Se grandes hostes daqueles que professam ser cristãos fossem , quer em sua vida familiar, quer em seus negócios, santificados pelo Espírito, a igreja se tornaria uma grande potência no mundo. Os santos de Deus poderão lamentar juntamente com Jerusalém, ao perceberem que sua espiritualidade e santidade estão em níveis baixíssimos! Outros podem considerar isto como algo que não trará qualquer conseqüência; porém, nós o vemos como o irromper de uma lepra.
Eis o desafio para a igreja de Cristo: “Purifiquemos de toda impureza, tanto da carne como do espírito, aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus” (II Coríntios 7:1). Não é a engenhosidade de nossos métodos, nem as técnicas de nosso ministério, nem a perspicácia de nossos sermões que trazem poder ao nosso testemunho. É a obediência a um Deus santo e a fidelidade ao seu justo padrão em nosso viver diário.
Precisamos acordar. O declínio é um lugar perigoso para ficarmos. Não podemos ser indiferentes. Não podemos continuar em nossa busca insensata por prazer e auto-satisfação. Somos chamados a lutar uma batalha espiritual e não poderemos ganhá-la apaziguando o inimigo. Uma igreja fraca precisa se tornar forte, e um mundo necessitado precisa ser confrontado com a mensagem da salvação; e talvez haja pouco tempo para isso. Como Paulo escreveu à igreja em Roma: “Já é hora de vos despertardes do sono; porque a nossa salvação está agora mais perto do que quando no princípio cremos. Vai alta a noite, e vem chegando o dia. Deixemos, pois, as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz”. (Romanos 13:11,12).
Estas palavras do príncipe dos pregadores não poderiam ser mais atuais. As igrejas hodiernas, lógico não todas, porém muitas delas, somente o que promovem é entretenimento, oferecendo às pessoas aquilo que estas desejam sem que sejam em momento algum confrontadas com a verdade do evangelho. Mais do que isso e quem sabe ainda pior, estas igrejas estão se tornando centros de diluição, de barateamento e distorção das Sagradas Letras. Pregadores usam o púlpito para alardearem discursos impensáveis à luz do evangelho de Jesus Cristo. Tais discursos são ponto de partida para práticas odiosas quando iluminadas pela luz do evangelho.
Os dias são maus é preciso remir o tempo, é preciso dependência exclusiva de Deus bem como submissão total a Sua Palavra.
Que o Senhor da glória nos ajude, que tenha misericórdia de nós para que aquele que pensa estar em pé não caia.
Prof. Gilson Malheiros
Mestre em Teologia
Fonte: www.institutodeteologialogos.com.br

sábado, 14 de junho de 2014

Um policial pode tirar a vida de alguém?

Do original: https://padrepauloricardo.org/episodios/um-policial-pode-tirar-a-vida-de-alguem#at_pco=smlwn-1.0&at_si=539cb75bbd3b1d82&at_ab=per-2&at_pos=0&at_tot=1

A pergunta dessa semana vem de um policial militar e ele quer saber se é possível tirar legitimamente a vida de alguém. Para responder a essa pergunta primeiro é preciso distinguir duas situações: a) tirar a vida de um malfeitor; b) tirar a vida de um malfeitor agressor.

O policial lida a todo momento com celerados e, para prendê-los, evitar que fujam ou outra situação similar é preciso que utilize de uma certa força física, de uma certa coerção, mas nem a força física e nem a coerção devem ser de intensidade tal que lhes tirem a vida.

Todavia, se um malfeitor, no anseio de fugir ou eximir-se da responsabilidade de seu ato criminoso, atacar o policial ou a força policial, é permitido que o policial atacado lhe tire a vida, pois seria o caso da legítima e proporcionada defesa.

O que não se permite é que o policial, sem ter sua incolumidade física ameaçada gravemente, tire a vida de um malfeitor apenas por ele ter cometido algum crime, ainda que esse tenha sido chocante, hediondo. Isso equivaleria à pena de morte e para tanto, é preciso que se recorra à instância adequada, ou seja, o Poder Judiciário. Ora, o policial pertence ao Poder Executivo e não ao Judiciário.

Quanto à pena de morte, a Igreja tem bem clara a sua posição (conforme explicado no RC nº 128) de que, embora seja possível em determinados casos, existem outras formas de defender o bem comum e a sociedade nos tempos atuais.

Assim, a resposta à questão levantada pelo policial militar é a seguinte: não é permitido tirar a vida de um celerado se a sua própria não estiver em grave perigo, ou seja, se o malfeitor não o estiver agredindo (ou em vias de) com tal gravidade que corra o risco de ele mesmo morrer.

Contudo, uma questão deve ser levantada. Espiritualmente falando, é de se supor que o criminoso não esteja em estado de graça, muito pelo contrário, é bem possível que ele esteja em pecado mortal. Deste modo, tirar-lhe a vida equivale a condená-lo ao inferno e isso é muito grave.

Desta forma, quando um malfeitor é condenado à morte deve ser dada a ele toda a oportunidade para confessar-se e arrepender-se de seu pecado. Tirar a vida de uma pessoa, sem dar a ela a chance do arrependimento e da confissão, deve ser o último recurso a ser utilizado.

O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota

Do original: https://padrepauloricardo.org/episodios/o-minimo-que-voce-precisa-saber-para-nao-ser-um-idiota#at_pco=smlwn-1.0&at_si=539cb5ed6f98d301&at_ab=per-2&at_pos=0&at_tot=1

O livro do professor Olavo de Carvalho, "O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota" (Editora Record, 2013), tornou-se um fenômeno de vendas instantâneo. Mesmo sendo um livro compendioso, de 615 páginas, a obra figurou em todas as listas dos mais vendidos da Internet, desde a semana de lançamento. Isso mostra o quanto o público brasileiro está sedento de informações – e informações verdadeiras.

O professor Olavo de Carvalho é um filósofo, no sentido genuíno da palavra. Além de possuir um pensamento filosófico próprio, ele procura a verdade de forma "cruel", com uma sinceridade destemida, de quem sai em sua busca sem medo do que irá encontrar ao final da investigação. Além de ter uma vasta obra filosófica – elaborada em livros como "A nova era e a revolução cultural", "O jardim das aflições" e "O imbecil coletivo" –, ele também dá a conhecer ao grande público algumas de suas reflexões e análises da realidade política, econômica e cultural do dia a dia brasileiro.

O trabalho intelectual do Padre Paulo Ricardo foi profundamente influenciado por Olavo de Carvalho. Como sacerdote fiel à Tradição e ao Magistério da Igreja, Padre Paulo tinha dificuldades para entender por que havia tantos empecilhos, fora e até dentro da Igreja, para transmitir a fé e a moral católicas. A partir de 2002, quando entrou em contato com o professor Olavo, ele começou a entender o motivo e, deste encontro profícuo com Olavo, nasceu o conhecido curso "Revolução e Marxismo Cultural".

Em "O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota", estão compilados 20 anos de trabalho jornalístico do professor Olavo. Sistematicamente organizada e repleta de inúmeras notas explicativas, esta edição, realizada por Felipe Moura Brasil, tem a virtude de oferecer um corpo bem organizado – e até enciclopédico, poder-se-ia dizer –, procurando introduzir o leitor no universo filosófico de Olavo de Carvalho.

O título pode parecer ofensivo a um olhar desatento, mas trata-se de um convite para que as pessoas saiam de seu mundo fechado e subam ao encontro da realidade. Como explica o próprio Olavo, "em grego, idios quer dizer ‘o mesmo’. Idiotes, de onde veio o nosso termo ‘idiota’, é o sujeito que nada enxerga além dele mesmo, que julga tudo pela sua própria pequenez"[1]. A atmosfera cultural do Brasil está tragicamente contaminada por este alheamento à própria realidade, consequência de um processo epidêmico de idiotice coletiva.

As 615 páginas desta ótima edição são apenas a superfície do pensamento de Olavo de Carvalho. A quem estiver disposto a conhecer a fundo a sua obra e aprender verdadeiramente a pensar, recomenda-se o ingresso no Seminário de Filosofia (www.seminariodefilosofia.org). Quem está acostumado com a linguagem filosófica, pode ter uma noção do pensamento do professor através do texto "Elementos da filosofia de Olavo de Carvalho"[2], escrito por Ronald Robson, um de seus alunos, que faz uma espécie de mapeamento da sua filosofia, condensando-a em oito grandes blocos e orientando os leitores de "O mínimo" para os textos correspondentes a cada um destes blocos.

Aos demais interessados no livro, mas menos afeitos à filosofia, recomenda-se a recensão do jornalista Reinaldo Azevedo, publicada em seu blog[3]. Ele comenta que os artigos presentes no livro "impactam ainda hoje e podiam ser verdadeiros alumbramentos há 10, 12, 13 anos, quando o autor, é forçoso admitir, via com mais aguda vista do que todos nós o que estava por vir".

Assim como o contato com Olavo de Carvalho mudou por completo a atividade intelectual do Padre Paulo Ricardo, "O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota" transformará totalmente a forma como seus leitores enxergam e concebem o mundo.
Referência

Olavo de Carvalho,Professores de corrupção, Diário do Comércio, 7 de maio de 2012. In O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, p. 281.
Ronald Robson,Elementos da filosofia de Olavo de Carvalho, 24 de agosto de 2013. In Ad Hominem.
Reinaldo Azevedo,"O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota", 2 de setembro de 2013. In Blog do Reinaldo Azevedo.

A noite escura da humanidade



O testemunho de Santa Teresa Benedita da Cruz, que abandonou o mundo acadêmico para confessar a paixão de Cristo no silêncio do Carmelo.
A “noite escura da alma”, uma espécie de deserto espiritual onde se experimenta o silêncio de Deus, é um tema muito frequente nas meditações dos santos da Igreja. Santa Teresa d’Ávila, a título de exemplo, diz que é próprio de quem se dedica à vida espiritual passar por uma derradeira provação de fé [1]. Trata-se de uma purificação dos sentidos e da alma, cujo objetivo principal é a total comunhão com Deus. A pessoa já não busca outra coisa senão tomar parte nas dores de Cristo crucificado, a fim de cooperar na obra da redenção.
A esse respeito, talvez não exista maior testemunho no último século do que o de Edith Stein. Entregando-se em holocausto pela salvação de seu povo, no campo de concentração de Auschwitz, a santa judia realizou na carne o que há tempo professava com os lábios: “o que nos salvará não serão as realizações humanas, mas a paixão do Cristo, na qual quero ter parte”[2]. Edith Stein havia compreendido a ciência da cruz, por assim dizer, buscando o significado da verdade [3]. Neste itinerário, a então filósofa ateia – e famosa discípula de um dos mais respeitados pensadores do século XX, Edmund Husserl – encontrou por acaso, na biblioteca de uma amiga, o Livro da Vida, de Santa Teresa. A leitura foi tão tocante, que ao seu término, Edith só pôde confessar isto: “é a verdade” [4]. A partir de então, Edith Stein lançou-se avidamente à procura de seu Amado: abandonou a vida acadêmica, para viver a espiritualidade carmelita, assumindo o nome de Teresa Benedita da Cruz. A 2 de agosto de 1942, foi brutalmente levada pelos nazistas ao campo de trabalho forçado, onde morreria como mártir, ao lado de sua irmã, Rosa.
Aos olhos do mundo moderno, um testemunho como o de Stein pode parecer loucura.Todavia, a sua heroicidade fala mais alto do que qualquer vileza. O encontro com Cristo gera uma mudança no íntimo de nosso ser – uma metanoia – que nos impulsiona a não mais satisfazer a própria vontade; pelo contrário, “aquele que visita o Senhor na sua Casa não falará sempre de si, nem de suas mesquinhas preocupações. Começará, aos poucos, a interessar-se pelas preocupações do Salvador”, a saber, a salvação do homem [5]. Essa salvação, por sua vez, só pode ocorrer no martírio diário, na noite escura da fé. Por isso Santa Teresa Benedita da Cruz, na noite escura de Auschwitz – onde a potência de Deus parecia inerme e a sua Palavra parecia muda – caminhava serena e convicta, apesar dos sofrimentos, como se estivesse a emprestar de São Josemaría Escrivá esta sua esperança: “cada dia que passa me aproximo da Vida” [6].
De fato, os santos estão longe de ser esse “fantasma que ficou petrificado – em posição quase sempre incômoda – num nicho, rodeado de velhotas de pele encarquilhada”, como tendem a pensar as almas deformadas deste século [7]. Pelo contrário, os santos são homens que sabem unir a vida cotidiana à vida sobrenatural, dando um significado divino às coisas simples do dia a dia, mormente nos períodos de angústia e solidão. Edith Stein uniu seu martírio ao sacrifício da cruz não por idealismo ou mera conveniência, porquanto “ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento” [8]. Ela simplesmente interpretou os sinais dos tempos. Não deixou de erguer a sua voz contra o nazismo, incentivando seus alunos e suas irmãs a lutarem contra a opressão do Terceiro Reich. Com efeito, diante do drama da dor, pôde repetir sem hesitação as palavras de Cristo na cruz: “tudo está consumado” [9].
A quase 70 anos do término da II Grande Guerra, vê-se mais uma vez o desenvolvimento de um paganismo selvagem, “um ateísmo militante operando em plano mundial”, tal qual aquele que vitimou Edith Stein [10]. No seio da Igreja, não obstante, assiste-se a uma desertificação desenfreada da fé, que atinge as mais altas esferas da hierarquia. O cristianismo vive cercado “por uma névoa de incerteza mais pesada do que em qualquer outro momento da história” [11]. A humanidade, por conseguinte, entra em uma noite escura. Resta-nos, então, a pergunta de Bento XVI, feita perante o memorial das vítimas do Holocausto, em Auschwitz: “Onde está Deus? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar este excesso de destruição, este triunfo do mal?” [12] É uma questão que se nos impõe, e que só pode ser feita por aqueles que têm fé. Edith Stein teve a sua resposta, doando-se inteiramente até àquele instante em que “não haverá mais noite” [13]. É o caminho que todos devemos percorrer: o caminho das noites escuras até àquela “que é diferente de todas as outras” – a noite da salvação!
Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Padre Paulo Ricardo, Esforçai-vos para entrar pela porta estreita, Parresía n. 63.
  2. MIRIBEL, Elisabeth de. Edith Stein: como ouro purificado pelo fogo. 4 ed. Aparecida: Editora Santuário, 1998, pág. 63.
  3. A Ciência da Cruz é o título do livro que Edith Stein escreveu a respeito da doutrina ascética de São João da Cruz. Disponível em: Livraria Loyola.
  4. MIRIBEL, Elisabeth de. Edith Stein: como ouro purificado pelo fogo. 4ed. Aparecida: Editora Santuário, 1998, pág. 64.
  5. Ibidem, pág. 148.
  6. ESCRIVÁ, Josemaria. Caminho. São Paulo: Quadrante, 2009 , n. 737.
  7. URTEAGA, Jesus. O valor divino do humano.São Paulo: Quadrante, pág. 18.
  8. Bento XVI, Carta Enc. Deus Caritas Est (25 de dezembro de 2005), n. 1.
  9. Jo 19, 30.
  10. João XXIII, Constituição Apostólica Humanae salutis (25 de Dezembro de 1961).
  11. Bento XVI, Discurso do Santo Padre durante a visita ao Campo de Concentração de Auschwitz-Birkenau (28 de maio de 2006).
  12. RATZINGER, Joseph. Introdução ao Cristianismo. São Paulo: Loyola, 2001.
  13. Cfr. Ap. 22, 4-5.

A Trindade nos Evangelhos

Em inúmeras passagens dos Evangelhos, Cristo nos revelou o mistério da Santíssima Trindade, inacessível à mente humana, e mesmo à angélica.
Adão nunca poderia imaginar que o Messias anunciado para reparar seu pecado seria o próprio Filho do Altíssimo. Entretanto, assim foi: “Na plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher” (Gal 4, 4). Numa minúscula casa de Nazaré, uma jovem humilde e pura medita sobre a antiga promessa do Criador, de enviar o Messias para resgatar o povo de seus pecados e instaurar uma nova ordem de coisas. Podemos imaginá- La lendo alguma passagem da Escritura, por exemplo, esta: “Eis que uma virgem conceberá”... (Is 7, 14).
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Com a Encarnação,os homens para os quais o pecado 
fechara as portas do Paraíso Terrestre, tinham agora 
abertas diante de si as portas do Paraíso Celeste


Adão e Eva sendo expulsos do Paraíso
Igreja São Rafael, Heredia (Costa Rica) 
Enquanto Ela tece em sua mente elevadas conjecturas sobre como seria a pessoa do Messias, uma suave luz ilumina seu quarto, e um Anjo, transido de admiração, Lhe dirige esta saudação: “Ave cheia de graça”! (Lc 1, 28). Faz em seguida o mais inesperado dos anúncios: será Ela a Mãe do Messias, a quem tanto desejava conhecer: “O Espírito Santo descerá sobre Ti, e a força do Altíssimo Te envolverá com a sua sombra. Por isso o Menino que nascer de Ti será chamado Filho de Deus” (Lc 1, 35).
Realizou-se, dessa forma, o misericordioso desígnio do Altíssimo: o Filho de Deus, “tornando-Se participante de nossa mortalidade, nos fez participantes de sua divindade”.1 E os homens, para os quais o pecado fechara as portas do Paraíso Terrestre, tinham agora abertas diante de si as portas do Paraíso Celeste!
Esse relato evangélico contém a revelação dos dois maiores mistérios da Fé. Um deles, a Encarnação do Verbo, se realizava naquele instante; o outro, a existência da Santíssima Trindade, não tem princípio. Foi esse o primeiro presente concedido ao gênero humano pelo Filho do Altíssimo. Por intermédio do celeste mensageiro, confiou-o à Virgem eleita desde toda a eternidade para ser sua Mãe. Nesse episódio São Gabriel manifesta-Lhe que tudo quanto se seguirá estará marcado pela Trindade Santíssima.2
Provavelmente, a narração bíblica registra apenas o resumo de um longo diálogo entre Maria e o Anjo. Nele, entretanto, o Espírito Santo fez constar a primeira alusão ao mistério trinitário. Com efeito, vê-se nas palavras do Arcanjo clara referência a cada uma das Pessoas Divinas. Começa por mencionar a Terceira Pessoa: “o Espírito Santo virá sobre Ti”. Em seguida, afirma: “a força do Altíssimo Te envolverá com sua sombra”, referência mais discreta à Pessoa do Pai, a qual ficará evidente na continuação da promessa: “o Menino que nascer de Ti será chamado Filho de Deus”. Se há um Filho, tem de haver também um Pai, é a conclusão lógica.
Temos, então, nesta passagem das Escrituras a primeira revelação do mistério da vida íntima de Deus. E é altamente simbólico o fato de ter sido feita Àquela na qual o Verbo Se encarnaria para operar a Redenção.
Batismo de Jesus: primeira manifestação pública do mistério trinitário
Mas, quem em Israel, ou mesmo na pequena Nazaré, teve conhecimento dessa realidade sublime, a não ser Nossa Senhora e São José? Tornava-se necessária uma manifestação pública de Cristo! Esta nos veio através de João Batista, o qual brilhou aos olhos de Israel como um facho de luz nas trevas da noite. “No meio de vós está quem vós não conheceis. Esse é quem vem depois de mim; e não sou digno de Lhe desatar a correia do calçado. Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 26.29) — declarou aos sacerdotes e levitas enviados de Jerusalém para interrogá-lo.
E quando o Mestre apresentou-Se no Jordão para ser batizado por ele, exclamou o Batista, ao vê-Lo: “Eu devo ser batizado por Ti e Tu vens a mim! Mas Jesus lhe respondeu: Deixa por agora, pois convém cumpramos a justiça completa” (Mt 3, 14-15). Cena incompreensível para quem desconhecia tratar-se do Messias. Porém, não tardou a explicação: quando Jesus saía da água, “João viu os Céus abertos e descer o Espírito em forma de pomba sobre Ele. E ouviu-se dos Céus uma voz: Tu és o meu Filho muito amado; em Ti ponho minha afeição” (Mc 1, 10-11). Daí, João não hesitar em proclamar: “Eu O vi e dou testemunho de que Ele é o Filho de Deus” (Jo 1, 34).
Aqui nos mostra o Evangelho Deus Pai manifestando Jesus aos homens como seu dileto Filho e o Messias de Israel, e pairando sobre Ele o Espírito Santo, o qual é “Deus uno e igual ao Pai e ao Filho, da mesma substância e também da mesma natureza”.3
Na Transfiguração apareceu toda a Trindade
Também no relato evangélico da Transfiguração podemos observar as características de glória e beleza da Santíssima Trindade. Fato ocorrido “numa alta montanha” (Mt 17, 1): o Monte Tabor, segundo uma tradição do século IV. Jesus levou consigo Pedro, Tiago e João, aos quais manifestou “a clareza de sua Alma e de seu Corpo”, 4 com um objetivo claro e imediato: “Era fundamental haver algumas testemunhas da glória de Jesus para sustentarem, na prova da Paixão, os Apóstolos em suas tentações”.5
Como narra São Mateus, “seu rosto brilhou como o Sol, suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura” (Mt 17, 2). Revelou-lhes, pois, algo que se encontrava além da figura visível de seu Corpo padecente. Embora em nada tenham participado da visão beatífica, inacessível aos olhos humanos, os três Apóstolos puderam, por assim dizer, contemplar uma centelha da glória e da divindade de Jesus transparecendo em sua santa humanidade.
Anunciação.jpg
No diálogo entre Maria e o Anjo, o Espírito Santo 
fez constar a primeira alusão ao mistério trinitário


Anunciação - Mosteiro de Nossa Senhora
do Monte Carmelo e São José, Nova York 
Mais adiante, na descrição do Evangelista, “uma nuvem luminosa os envolveu” (Mt 17, 4). Como se sabe, certos fenômenos naturais significavam para os israelitas a própria presença de Deus, o qual Se manifestava por meio de símbolos como o fogo, o vento e a nuvem. Assim, a Moisés Ele Se apresentou “na obscuridade de uma nuvem” (Ex 19, 9). Fato mais expressivo deu-se na dedicação do Templo de Salomão: “A nuvem encheu o Templo do Senhor, de modo tal que os sacerdotes não puderam ali ficar para exercer as funções de seu ministério, porque a glória do Senhor enchia o Templo” (I Rs 8, 10-11).
Portanto, sem dúvida, a “nuvem luminosa” do Tabor evidenciou para os três Apóstolos a presença divina entre eles. O Doutor Angélico no-la indica como uma figura da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. “Na Transfiguração, [...] apareceu toda a Trindade: o Pai na voz, o Filho no Homem, o Espírito na nuvem luminosa”. 6 Ensinamento acolhido no Catecismo da Igreja Católica (n.555).
Por fim, do interior dessa nuvem fez-se ouvir uma voz: “Eis o meu Filho muito amado, em quem pus toda a minha afeição; ouvi-O” (Mt 17, 5). Jesus é, pois, o Filho Unigênito, o Messias prometido, consubstancial ao Pai e participante de seu Ser e de suas obras. Com essa declaração do Pai, o esplendor divino do Filho e a manifestação do Espírito Santo numa nuvem, a Santíssima Trindade Se revela de modo claro.
O que terão entendido dessa manifestação os três Apóstolos? Terão feito perguntas ao Mestre? Quais terão sido as respostas? Infelizmente, a sintética narração bíblica nada registra sobre tais detalhes. Mas ela contém o suficiente para não deixar dúvida a respeito de um ponto: aos católicos de todos os tempos, a cena da Transfiguração apresenta Jesus como o Filho Único de Deus a Quem todos devem escutar.
Por ocasião do Batismo no Jordão, a voz do Pai dirige-se a Jesus, para instituí-Lo em sua missão redentora: “Tu és o meu Filho muito amado; em Ti ponho minha afeição” (Mc 1, 11). No Tabor, dirige-se aos Apóstolos, dando-lhes a categórica ordem de prestar ouvidos à palavra de Cristo: “Ouvi-O”.
Jesus, Filho de Deus
Em diversas ocasiões Jesus chama a Deus de Pai. Na parábola dos agricultores assassinos (cf. Lc 20, 9-19), manifesta com clareza como tinha noção de sua filiação divina. Com efeito, o proprietário da vinha, símbolo do próprio Deus, enviou um após outro seus servos, os profetas, com a incumbência de receber a parte da colheita devida ao arrendador. Os agricultores desprezaram, espancaram e maltrataram todos os enviados. O senhor da vinha tomou então esta decisão extrema: “Mandarei meu Filho amado, talvez o respeitem” (Lc 20, 13). E eles o mataram! O tema desta parábola servia ao Divino Mestre para levar seus ouvintes a compreenderem o mau comportamento dos israelitas em relação aos mensageiros enviados por Deus, os profetas. Atitude levada ao último extremo pelos sumos sacerdotes, com o deicídio.
Também quando expulsa do Templo os vendilhões, Jesus fala como Filho do Senhor do Templo: “Tirai isto daqui e não façais da casa de meu Pai uma casa de negociantes” (Jo 2, 16). E com um chicote trançado por suas próprias mãos põe em fuga a multidão de comerciantes!
Mas esse Jesus que castigava com tanta energia, sabia compadecer-Se dos sofredores. Tendo subido a Jerusalém por ocasião de uma festa judaica, passou perto da piscina de Betesda, em cujos pórticos se encontravam muitos enfermos à espera da chegada de um Anjo do Senhor que de tempos em tempos descia e movimentava a água. Ansiosa expectativa, pois o primeiro a tocar a água em movimento logo ficava curado de sua enfermidade. Jesus viu deitado ali um homem que estava paralítico havia 38 anos e, num gesto de carinho e compaixão, disse-lhe: “Levanta- -te, pega tua cama e anda” (Jo 5, 8). Grande foi a surpresa de todos quantos assistiram à cena e comprovaram a alegria do miraculado.
Batismo de Jesus - Igreja de São João Batista, Halifax (Canadá).jpg
Aqui nos mostra o Evangelho Deus
Pai manifestando Jesus aos 
homens como seu dileto
Filho e o Messias de Israel
Os fariseus, porém, acusaram o Mestre de estar violando a Lei, por ter curado em dia de sábado. Deram-Lhe, assim, excelente ocasião de manifestar sua filiação divina. Para refutar a argumentação farisaica, respondeu-lhes Ele: “As obras que meu Pai Me deu para executar — essas mesmas obras que faço — testemunham a meu respeito que o Pai Me enviou. E o Pai que Me enviou, Ele mesmo deu testemunho de Mim” (Jo 5, 36-37). Mais uma vez, Jesus Se revela a todos como Filho de Deus. “Nessa relação de Deus Pai com o Filho, São João O destaca com a denominação ‘Filho Unigênito’ (monogenê, Jo 1, 14.18; 3, 16.18; I Jo 4, 9). Isto indica pelo menos três coisas: Jesus é gerado pelo Pai, é Filho Único e é igual ao Pai, pois, por meio de Jesus, Deus Se revelou como Pai”.7
“Quem Me viu, viu o Pai”
Diante dos Apóstolos, entretanto, essa revelação desvenda um aspecto novo. Quando Filipe pede a Jesus: “Senhor, mostra-nos o Pai” (Jo 14, 8), Ele o repreende suavemente: “Há tanto tempo estou convosco e não Me conheces? Quem Me viu, viu o Pai. Como, pois, dizes ‘Mostra-nos o Pai’... Não credes que estou no Pai, e o Pai está em Mim? As palavras que vos digo, não as digo de Mim mesmo; mas o Pai, que permanece em Mim, é que realiza as suas próprias obras. Crede-Me: estou no Pai, e o Pai em Mim” (Jo 14, 9-11). Ou seja, Ele e o Pai têm a mesma natureza divina e são inseparáveis.
Não pode ser esquecido o modo, pervadido de ternura e confiança, de Jesus tratar a Deus Pai, dando-Lhe o apelativo familiar de “Aba” (“Papai”, em aramaico), no pungente episódio do Getsêmani, marco inicial de sua Paixão: “Adiantando-Se alguns passos, prostrou-Se com a face por terra e orava que, se fosse possível, passasse d’Ele aquela hora. Aba! (Pai!), suplicava Ele. Tudo Te é possível; afasta de Mim este cálice! Contudo, não se faça o que Eu quero, senão o que Tu queres” (Mc 14, 35-36).
Não deixa de ser curioso, ademais, que, quando Se reza a Deus, Jesus nunca O chama de Deus, mas sim de Pai. Usa o termo Deus quando fala d’Ele diante dos outros, mas não em sua oração pessoal. Só o faz na Cruz: ‘Meu Deus, meu Deus, por que Me abandonaste?” (Mc 15, 34). Mas aqui, como sabemos, está recitando o salmo 21.
Ao declarar-Se Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo Se identifica plenamente com a divindade. Não se trata de uma filiação simbólica ou adotiva, como a dos outros homens por Ele justificados. De tal forma está convicto de sua divindade, que chega a condicionar a salvação à fé em sua Pessoa: “Quem crê no Filho tem a vida eterna. Quem, porém, recusa crer no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele” (Jo 3, 36). Dessa forma, Jesus vai revelando a sua relação filial com Deus Pai. Mostra sua dignidade de Filho Unigênito, como Ele mesmo declara na conversa noturna com Nicodemos: “Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho Único” (Jo 3, 16).
O Espírito Santo, o Consolador
São numerosas no Antigo Testamento as referências ao “Espírito de Deus” e ao “Espírito do Senhor”. Por exemplo, no primeiro dia da Criação, “o espírito de Deus pairava sobre as águas” (Gn 1, 2). No cimo do Monte Fagor, o Espírito de Deus desceu sobre Balaão e o fez abençoar Israel (cf. Nm 24, 2). Em suas últimas palavras, proclama o Rei Davi: “O Espírito do Senhor fala por mim, sua palavra está na minha língua” (II Sm 23, 2). E o Livro da Sabedoria canta: “O Espírito do Senhor enche o universo” (Sb 1, 7). Todavia, estas duas expressões não significam, na Antiga Aliança, uma Pessoa distinta no seio da divindade. Nosso Senhor Jesus Cristo é Quem nos revelará a personalidade divina do Paráclito, cuja manifestação pública se patenteará com o maior esplendor na descida sobre Maria Santíssima e os Apóstolos, em Pentecostes.
Na Última Ceia, pouco antes de dirigir-Se ao Horto para iniciar a Paixão, Jesus deu-lhes uma garantia: “O Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo quanto vos tenho dito” (Jo 14, 26).
Vendo como a tristeza enchia o coração dos Apóstolos ante a perspectiva dos iminentes acontecimentos por Ele anunciados, explicou-lhes o Mestre: “Convém a vós que Eu vá! Porque, se Eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas se Eu for, vo-Lo enviarei” (Jo 16, 7). E acrescentou pouco adiante: “Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a verdade” (Jo 16, 13).
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 Todas as afirmações do Divino Mestre
antes da Paixão não foram suficientes
para iluminar a mente dos Apóstolos
No dia de sua Ascensão aos Céus, Cristo prometeu comunicar aos Apóstolos um espírito de fortaleza: “Eu vos mandarei o Prometido de meu Pai; entretanto, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do Alto” (Lc 24, 49). Proclama, assim, a estreita participação do Espírito Santo em sua missão redentora, conferindo, por um movimento interior e vivificador nas almas, os meios sobrenaturais necessários para os homens atingirem os gloriosos fins da Redenção.
Pentecostes, luz sobre o mistério trinitário
Entretanto, todas as afirmações do Divino Mestre antes da Paixão não foram suficientes para iluminar a mente dos Apóstolos. Arraigados às tradições de seus antepassados, era-lhes difícil admitir a existência de Três Pessoas em um Deus único.
Em sua aparição aos Onze Apóstolos na montanha da Galileia, algum tempo após a Ressurreição, o Divino Mestre referiu-Se de modo claro e inequívoco à Trindade: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai- -as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28, 19). Mas só mesmo com a descida do Paráclito, em Pentecostes, tornaram-se claras para eles estas palavras do Salvador. Contêm elas a mais explícita formulação do mistério da Trindade, pois o próprio Jesus, quando manda batizar “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, afirma a existência de um Deus em três Pessoas: distintas entre Si, mas constituindo uma só unidade substancial.
Diante desse belo e misterioso panorama revelado por Nosso Senhor, cabe-nos aspirar ao convívio eterno com a Trindade no Céu, cantando a sua glória, como Santo Agostinho em sua oração: “Quando, pois, estivermos em vossa presença, cessarão ‘estas palavras que repetimos sem entender’, e sereis para sempre tudo em todos (cf. I Cor 15, 28). E Vos louvaremos por toda a eternidade, cantando numa só voz, unidos todos em Vós”.8 (Diácono Lucas Alves Gramiscelli, EP; Revista Arautos do Evangelho, Junho/2014, n. 150, pp.16 à 20)
Fonte: Arautos do Evangelho - www.arautos.org
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