// Estar com Deus

terça-feira, 8 de outubro de 2019

A PARÁBOLA DA PORTA

O texto a seguir foi retirado do livro: Por trás das palavras. 5ª. ed. Carlos Mesters. Petrópolis: Vozes, 1984. p. 13-19.
 A parábola da porta
I. No povoado havia uma casa. Era chamada Casa do Povo. Muito antiga, bem construída. Tinha uma porta bonita e larga, que dava para a rua por onde o povo passava.
Porta estranha. Seu limiar parecia eliminar a separação que havia entre a casa e a rua. Quem por ela entrava parecia continuar na rua. Quem passava na rua parecia ser acolhido e envolvido pela casa. Nunca ninguém se deu conta desse fato, pois era uma coisa tão natural, como é natural haver luz e calor, quando o sol brilha no céu.
A casa fazia parte da vida do povo, graças àquela porta que unia a casa à rua e a rua à casa. Era a praça da alegria, onde a vida se desenrolava, onde tudo se discutia, onde o povo se encontrava. A porta ficava aberta, dia e noite. Seu limiar era gasto pelo uso no tempo. Muita gente, todo mundo por aí passava.
II. Certo dia, chegaram dois estudiosos. Vinham de fora. Não eram de lá. Não conheciam a casa. Só tinham ouvido falar da sua beleza e antiguidade. Vieram para ver. Eram estudiosos que sabiam julgar as coisas antigas. Viram a casa e logo perceberam o seu grande valor. Pediram licença para ficar. Seu desejo era estudar.
Procuraram e encontraram uma porta do lado. Por aí entravam e saíam, para fazer seus estudos. Não queriam ser importunados pelo barulho e borbulho do povo na porta da frente. Queriam ter a tranqüilidade necessária para fazer as suas reflexões.
Ficavam lá dentro, longe da porta do povo, num canto escuro, absortos na investigação do passado da casa.
O povo, entrando na sua casa, via os dois com grandes livros e máquinas complicadas. Chegando perto deles, a gente humilde ficava calada. Silenciava, para não perturbá-los. Tinha por eles uma grande admiração: “eles estudam a beleza e a história da nossa casa! São estudiosos!”
III. Os estudos avançavam. Os dois descobriram coisas lindas que o povo não conhecia, embora as visse na sua casa, todos os dias. Obtiveram licença para raspar algumas paredes e descobriram pinturas antigas que representavam a história da vida do povo, história que o povo não conhecia. Fizeram escavações junto às colunas e conseguiram retraçar a história da construção da casa, história de que ninguém se lembrava.
O povo não conhecia o passado da sua vida e da sua casa, porque o passado estava dentro dele, atrás dos seus olhos que não se enxergam a si mesmos, mas que enxergam todo o resto, orientando a vida para a frente.
À noite, nos serões, misturados com o povo, os dois estudiosos contavam as suas descobertas. Crescia no povo a admiração pela sua casa e pelos dois.
IV. Os dias iam passando. O povo, quando entrava na casa, já ficava calado. Uma casa tão rica e nobre, tão discutida e falada no mundo inteiro, merecia respeito. Era diferente da vida barata da rua ao lado. Tinham de respeitá-la um pouco mais. Aquilo não era lugar de conversa. Assim todos diziam. Assim todos faziam.
E algumas pessoas daquele povoado já nem mais entravam pela porta barulhenta da frente. Preferiam o silêncio da porta lateral dos estudiosos. Evitavam o barulho do povo. Entravam na casa, já não para encontrar-se e falar com os outros, mas para poder conhecer melhor a beleza da sua casa, a Casa do Povo. Recebiam explicações dos estudiosos sobre a casa que tanto conheciam e pareciam não conhecer mais.
V. Assim, pouco a pouco, a Casa do Povo deixou de ser do povo. O povo inteiro preferiu a porta dos estudiosos.
O povo convenceu-se de que era ignorante mesmo. Os estudiosos é que sabiam e conheciam as coisas do povo melhor do que o próprio povo. Assim pensavam todos.
Agora, entrando na sua própria casa, o povo ficava silencioso e acanhado. Como se estivesse numa casa estranha, dos tempos passados, que não conhecia. Observava e estudava, em grupos pequenos, rodando na quase escuridão. Já nem mais se lembrava dos tempos de outrora, quando juntos falavam e brincavam  no lugar onde agora estudavam, olhando sério, imitando os estudiosos, repetindo suas lições.
VI. Pouco a pouco, a porta da frente foi esquecida. Uma tempestade de vento a fechou. Ninguém a notou. Mas não fechou de todo. Uma fresta estreita ficou.
Cresceu o capim na frente. A mata vegetou, cobrindo a entrada, por falta de uso. Até o aspecto da rua mudou. Agora era só rua. Nada mais. Triste e deserta, um beco sem saída, sem os encontros do povo que por aí passava.
A porta do lado acolhia o povo, que entrava e olhava, admirado e extasiado. Tanta riqueza que não conhecia!
Por dentro, a casa ficou mais escura, por falta da luz que vinha da rua. Lâmpadas e velas supriam a falta. Mas a luz artificial modificava as cores.
VII. O tempo foi passando. A alegria da descoberta arrefeceu. Diminuía o fluxo do povo que visitava a casa pela porta do lado, porta dos estudiosos. E a porta do povo que ficava na frente já não existia. Dela ninguém mais se lembrava.
O povo sabido, um punhado de gente, com visitantes ilustres de outros lugares, continuava a frequentar a casa do povo, pela porta dos estudiosos. Lá dentro, fazia as suas reuniões, discutindo as coisas antigas da casa, coisas do passado.
O povo sofrido, a gente humilde, passava na rua, deserta e triste. Não se interessava pelas coisas antigas. Não entendia das brigas dos estudiosos. Vivia a vida, só isso fazia. Mas parecia que algo faltava. Não sabia o quê, pois não mais se lembrava. Faltava uma casa que fosse do povo.
VIII. Os estudiosos, alegres com as descobertas, continuavam os estudos. Fundaram até uma escola, para educar os meninos do povoado na ciência do passado. Seriam os seus sucessores na defesa da Casa do Povo. Assim pensavam.
Mas um dos dois ficou apreensivo com a falta crescente do interesse da gente. A massa do povo já não aparecia. Notou que a vida do povo já não era a mesma. Era menos alegre. Diferente de quando chegou. Cada um, agora, só pensava em si. Não havia mais encontros. Tentaram, é verdade, encontrar-se em outros lugares. Mas não deu certo. Os encontros programados levavam a um desencontro maior. Algo faltava. Ele não sabia o quê. Procurava sabê-lo.
E ele se perguntava: “Por que é que o povo já não comparece em sua própria casa?  Por que é que não vem mais aqui para conhecer as coisas que nós dois descobrimos e defendemos para ele? Por que é que não vem mais aqui para conversar e encontrar-se, para brincar, falar e cantar?” Não tinha resposta para as perguntas que se fazia.
O outro estudioso nada disso notou, absorto, como estava nos seus estudos do passado. Reclamava até do colega: “Você anda muito distraído! Sua pesquisa não vale mais nada. Ela é muito superficial!” Exigia dele maior aplicação no estudo do passado e menor atenção para o povo da rua. Pois, afinal, era ele que mandava na expedição.
IX. Certa noite, aconteceu que um velho mendigo, sem casa, sem ter onde morar, entrou na mata que crescia ao lado da rua, à procura de um abrigo. E lá ele viu, sem saber o que era, uma fresta aberta, e por ela entrou. Na sua frente, se abriu uma casa enorme. Casa tão boa que o deixou logo à vontade. Parecia estar na rua e, no entanto, estava bem abrigado.
Na noite seguinte, voltou para lá. Voltava sempre. Foi dizê-lo aos seus amigos, todos mendigos, pobres como ele. Contava a descoberta como se fosse um segredo. Foram com ele. Entraram todos, um por um, pela fresta estreita da porta da frente, que um dia o vento bateu, sem conseguir fechá-la por inteiro.
De tanto entrar e sair pela porta da frente, o capim foi pisado, o mato abatido. Uma trilha estreita apareceu no chão, um caminho novo se abriu.
Sendo tantos os amigos que queriam entrar, empurraram a porta, e ela cedeu. Ficou um pouco mais larga a entrada, para o povo passar, para o sol entrar. A casa iluminou-se por dentro, ficou mais bonita. Ficaram mais à vontade. Grande foi alegria do povo.
X. A descoberta correu de boca em boca da gente humilde. Nada contavam aos outros. Era o segredo deles. “Aquela casa é nossa”, assim eles diziam. Mas a descoberta não podia ficar escondida. Era uma ingenuidade do povo simples que pouco reflete e não tem malícia.
De manhã, quando o relógio marcava a hora da abertura da porta do lado, para receber os visitantes ilustres, os faxineiros encontravam lá dentro sinais da presença do povo humilde. Ouviam até as suas risadas e conversas. Conversas de gente contente, bem à vontade, que não se incomodava com as coisas antigas, nem pagava para entrar. Risadas de gente que se sentia em casa, na casa que começava a ser, de novo, a Casa do Povo.
O fato foi levado ao conhecimento dos dois estudiosos. Um ficou bravo, o outro calou-se. O primeiro reclamou: “Como é possível tanta ignorância! Vão estragar e profanar a nossa casa! E o nosso esforço? O estudo de tantos anos? Onde ficou? Falou como se fosse o dono da casa. O outro retrucou: “A casa não é sua!”  Os dois brigaram por causa da casa, por causa do povo.
XI. O outro estudioso escondeu-se, de noite, num canto da casa. Viu o povo entrar, sem pedir licença, para brincar, falar e cantar, para sentir-se à vontade e encontrar-se com os outros. Gostou de ver essa alegria na casa e esqueceu-se, por um momento, das riquezas antigas. Gostou tanto, que entrou na roda e brincou. Brincou, falou e cantou, a noite inteira. Coisa que de há muito não mais fazia. Nunca se sentira tão feliz na vida.
Descobriu, naquela hora, que tudo aquilo que tanto estudara, tinha sido feito pelo povo, para o povo poder alegrar-se na vida. Descobriu, então, a resposta para as perguntas que antes fizera. O erro estava na porta do lado. Esta desviou o povo da porta da frente, separou a rua da casa e a casa da rua, fez a casa ficar mais sombria, estranha ao povo, fez a rua tornar-se deserta e triste, um beco sem saída.
Também ele passou a entrar pela porta da frente. E assim fazia, todas as noites. Passava a ser conhecido e acolhido pelo povo que não distingue as pessoas que nele se misturam. Era um do povo.
XII. Entrando pela porta da frente, olhava a riqueza e a beleza da casa de um ângulo novo que ainda não conhecia. Vista à luz que vinha da rua e da alegria do povo, a casa revelava coisas lindas que os livros não ensinavam e as máquinas não descobriam.
Para ele, a casa tornou-se como a montanha majestosa que o sol ilumina, de repente, com seus raios gratuitos, vermelho-amarelos, no raiar de um novo dia. Tudo mudou, embora nada tivesse mudado. Tudo era como antes, e tudo era tão diferente. Uma nova esperança nasceu.
Começou a estudar os seus livros com um novo olhar e descobria coisas que o colega nem suspeitava. Seu gosto pelo estudo até aumentou, mas o colega não acreditou.
Estando no meio do povo e participando da sua alegria, o estudioso falava ao povo das riquezas da casa. Falava das coisas lindas que a casa possuía e que ele descobria à luz que vinha dos livros e do passado, e à luz que vinha da rua e da alegria do povo. Falava segundo a oportunidade que se dava. Sua voz não pesava nem abafava. Não fazia calar a gente humilde pelo peso da ciência e da sabedoria. Ensinava o povo, no meio da alegria, e aumentava nele o prazer de viver.
E ele dizia consigo: “Diante da vida do povo sofrido, a gente não fala, só sabe calar; esquece as ideias do povo sabido e fica humilde, começa a pensar…”

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

O que Tomás de Aquino pode nos ensinar sobre o consumismo


O que Tomás de Aquino diria sobre o consumismo? 
Com um pouco de imaginação e algumas referências à Summa Theologiae (Suma teológica), podemos compreender melhor a loucura pelo dinheiro em nossa sociedade, segundo a análise que o grande teólogo faz do pecado capital da gula. 

Tomás de Aquino discute cinco dimensões do pecado da gula:


Ardenter – ansioso: Minha mãe costumava dizer: “Esse dinheiro está queimando no bolso!” Corremos para as lojas como se os melhores ou os únicos bens pudessem ser encontrados lá. Nada que podemos comprar pode durar; nada que compramos satisfará nossas almas – então, por que a pressa?

Praepropere – precipitado (a primeira forma de devassidão): essa é a ilusão sedutora do “Compre agora, pague depois!” Essa é a armadilha do cartão de crédito – usá-lo para comprar agora e deixar para pagar depois, quando não se pode.

Laute – dispendioso (a segunda forma de devassidão): esta é uma forma de desperdício. Não se endividou, mas se gastou muito em relação a outras obrigações. Para uma pessoa consumista, “bom o suficiente” nunca é “bom o suficiente”.

Nimis – em grande parte do tempo (a terceira forma da devassidão): isso é a “terapia das compras” ou comprar como hobby. Aqui se é consumido pelo consumo. 

Studiose – consumindo de forma muito detalhista: entra aqui o logotipo como símbolo de status; a marca como uma medida do nosso valor. Quando a identidade e o valor da pessoa não estão enraizados no espiritual, falta um sentimento de pertença. Consequentemente, surge uma estratégia (às vezes uma estratégia consciente, às vezes não) para nos adornar com os símbolos de uma marca cobiçada. Pode significar falta de valorização pessoal.

Os termos de Tomás de Aquino podem não ser familiares. E essa adaptação pode soar estranha. Mas vejamos um exemplo de excesso de consumismo: hoje se pode até contratar um “consultor de closet” para aconselhá-lo a reorganizar seu armário para abrir espaço para mais coisas.

Não seria sinal de um vício? Não seria um indicador de que estamos desesperadamente infelizes e não sabemos por quê? Que fome estamos tentando alimentar? Quão profunda é o vazio que estamos tentando preencher?

Deus fala através do profeta Isaías: “Por que gastar dinheiro naquilo que não é pão e o seu trabalho árduo naquilo que não satisfaz? Escutem, escutem-me, e comam o que é bom, e a alma de vocês se deliciará na mais fina refeição.” Essa é a chave, não é? Construímos uma economia, uma cultura e uma mania de consumir bens materiais para satisfazer a fome espiritual. Isso nunca vai funcionar.

O que fazer? Bem, podemos falar sobre desejos versus necessidades – isso não é ruim, mas não é suficiente. Isso só aborda a dimensão material. Precisamos de um senso adequado de prioridades. O filósofo Kierkegaard disse: “O que é relativo deve ser tratado relativamente; o que é absoluto deve ser tratado absolutamente”. O único absoluto é Deus. Temos de limpar o altar de nossos corações para encontrar o único digno de adoração, o único bem que pode satisfazer nossos corações e completar nossas vidas.

domingo, 28 de abril de 2019

Por que há demônios esculpidos nas catedrais de Notre-Dame e Sevilha?

DIABEŁ
Professor Felipe Aquino - 25 de Abril de 2019.

No tempo em que essas catedrais foram erguidas tinha-se bem presente uma verdade sobre o diabo que hoje anda esquecida



Não apenas as catedrais de Notre Dame de Paris e de Sevilha têm demônios esculpidos na fachada. Todas as catedrais medievais os trazem. E não só na fachada, mas também no interior, esculpidos, pintados ou nos vitrais. E não apenas as catedrais: as igrejas dos Séculos XI ao XIV os representam em múltiplas formas e aspectos. Era um hábito muito salutar dos construtores das igrejas de então. Por quê?
Naquele tempo os livros eram raros. A Igreja utilizava seus edifícios sagrados para instruir os fiéis a respeito das verdades da Fé. Assim, as fachadas são cheias de cenas bíblicas, de símbolos históricos, de personagens de legenda. Nelas se vêm fatos cotidianos referentes à vida profissional, à vida de família, religiosa ou guerreira – a Igreja com isso ensinava os comportamentos virtuosos e condenava os maus hábitos. Vêm-se os eleitos entrando na glória eterna e os condenados sendo lançados no fogo eterno, bem como alegorias evocando virtudes e vícios. Entre as evocações dos vícios estão os demônios.
Na igreja que frequento em Paris – Saint Julien le Pauvre – vê-se, no interior, um demônio no alto da ogiva, exatamente sobre o altar do celebrante. Como um gato, pronto a dar um bote, com cara de esperto e aliciador, o demônio encara o público. É o demônio da distração. Aqueles que não assistem à Missa atentamente põem-se ao alcance de seu bote. E é incrível: quando nos distraímos durante a celebração e o olhar perdido vagueia pela igreja, os olhos caem invariavelmente sobre ele. Não há então quem não se corrija, voltando a atenção à celebração. Sabedoria da Igreja. Em Notre Dame os demônios mais famosos são em forma de gárgulas; isto é; terminais das canaletas que lançam na rua a água de chuva, escorrida dos telhados. São medonhos. Neste momento a França se encontra sob fortes chuvas.
A Bretanha foi inundada, os rios transbordam. Outro dia, mostrava a catedral a amigos brasileiros e chovia. Do lado de fora esses demônios despejavam água sobre as calçadas, espirrando em todos, impedindo-nos assim de contemplar os belos detalhes das fachadas laterais. Se não fossem esses demônios, as canaletas levariam as águas até os esgotos, e nós tranquilamente terminaríamos a visita. O demônio só atrapalha. Fizemos um ato de detestação a ele: é o que a Igreja deseja. Seu objetivo, colocando ali aquelas figuras monstruosas estava alcançado: escapar de satanás e de suas tentações. Mais uma vez, sabedoria da Igreja.
O clero do tempo da catedrais tinha bem presente uma verdade hoje esquecida: a maior esperteza do demônio consiste em fazer crer que ele não existe. Recentemente ouvi um sermão dizendo que, se o Inferno existe, deve estar vazio. Veja como o sentimentalismo mole daqueles que não quererem se compenetrar de que esta vida é um combate, conduz a clamorosos erros contra a Fé. Isso se dá até mesmo com personagens que deveriam ensinar a verdade inteira. E esses demônios são hediondos. Nada têm dos demoninhos engraçadinhos, do tipo Brasinha, que se vêm com frequência por aí, fazendo gracinhas. Os tempos de fé não mascaravam a hediondez dos infernos.
Por Dr. Nelson Fragelli, traduzido por Nelson Barreto e republicado do Blog do Prof. Felipe Aquino 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

O NATAL EM NOSSAS VIDAS

Hoje é véspera de Natal, Ano de 2018.

Neste dia, proponho um exercício: Tentem responder questões como estas?

1 – Que significado tem para nós o Natal e tudo o que o envolve: Cartões, votos de “Um feliz Natal”, presentes, a festa.

2 – Que dizem para nós os enfeites que colocamos em casa, na igreja, nas lojas, arvores, presépios, papai Noel, as músicas natalinas?

3 – Que conteúdo e que implicações existenciais traz consigo a celebração do Natal para nós e para os nossos e para a sociedade?

O Natal está enraizado na vida de nosso povo. É um momento magico que impulsiona nosso coração a salientar os mais caros valores morais e espirituais que acreditamos serem inteligentes indispensáveis para a felicidade de qualquer pessoa neste mundo.

Nos cartões, e-mails, redes sociais, cartas, telefonemas e nos encontros pessoais, nossa saudação se transforma em oração: “Feliz Natal”; “Desejo-lhe um Feliz Natal”; “Que o Natal lhe traga saúde e paz”. Por toda parte são estimulados gestos concretos de solidariedade, que levem consigo, simbolicamente, o mais importante: nosso desejo de que o mundo seja habitado pela Fraternidade, justiça e paz.

E até mesmo o mundo do consumo, por mais interessado que esteja no lucro, trabalha muito em cima da importância simbólica da troca de presentes e da ceia de Natal, favorecendo o estreitar dos laços mais preciosos no ser humano: os da família e da amizade. Natal é festa de família, nova esperança permanente de um mundo novo, justo, solidário, carregado de amor e paz. 

O Natal de Jesus Cristo, conforme o relato dos evangelistas Mateus e Lucas, é rico de fatos e nos apresentam: a anunciação de Maria, a visita de Maria a sua prima Isabel, o nascimento de Jesus numa gruta em Belém, a presença da estrela, a adoração dos pastores e dos sábios do oriente, a apresentação de Jesus no Templo, a perseguição de Herodes e a fuga para o Egito.

Mais tarde à tradição Cristã, por influências várias, foram acrescentados elementos que hoje são indispensáveis na comemoração e na decoração da festa de Natal, dando-lhe uma identidade única. Deturpados ou não pela sociedade secularizada e dominada pelo mercado, eles constituem o eco do maior evento da história: a encarnação do Filho de Deus.

Cabe aos que que Creem em Cristo, relembrar continuamente que essa festa e os ingredientes que a identificam nasceram da fé apontam para a fé, se concretizam em demonstrações amor, solidariedade para com os mais necessitados e luta por uma vida mais digna para todos, e principalmente a paz. 

Os que tem o dom da fé devem alertar, por todos os meios possíveis que: Natal tem a ver é com Jesus de Nazaré, com a referência histórica do nascimento de Jesus Cristo: Afinal é a celebração de seu aniversário!

Fazemos festa porque, como diz o profeta Isaías, “um menino nos foi dado”. O Natal celebra o nascimento de Cristo, e nesta festa adquire-se um novo sentido, no nascimento de qualquer pessoa, surge uma nova vida para o mundo.

É por isso que no Natal cresce em todos a consciência de que todo atentado contra a vida é uma agressão ao próprio Deus.

Para aqueles que Creem, o Natal implica em nascimento em dois níveis: o da comunhão com o evento histórico do nascimento de Jesus e o da decisão atual de renascer, de modo renovado, para a vida nova em Cristo.

Essa vida nova, no contexto de hoje, explode necessariamente na luta por um equilíbrio pessoal nas dimensões da vida humana: a relação harmoniosa consigo mesmo, com os outros, com a natureza e com Deus e, também, do modo incisivo de se engajar na luta pelo direito à vida, à vida digna e de qualidade para todos. 

Desejo a todos um Feliz Natal e que deixem seus corações livres e abertos para aceitar Cristo que está em vocês. Vocês podem não concordar ou entender, mas ele está aí, pronto para nos dar vida.

O verbo se fez um de nós para trazer vida e vida em abundância – Livro de São João Capitulo 1:1-18.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

SERÁ QUE É NECESSÁRIO INTERPRETAR A BÍBLIA?

Ao começar o próprio estudo da hermenêutica, devemos nos perguntar se é realmente necessário interpretar a Bíblia. Algumas pessoas afirmam que não. Alguns acham que a Bíblia já foi escrita numa linguagem pura e simples de entender. Afinal, a Bíblia não é a Palavra de Deus para o povo de Deus? Deus nos mandaria uma mensagem difícil de entender?
Estas mesmas pessoas às vezes dizem “A Bíblia diz o que significa e significa o que diz.” Ou seja, não há necessidade de interpretar a Bíblia porque ela é clara. Segundo este raciocínio a mensagem da Bíblia não precisa ser explicada. Existe até medo de que no próprio processo de interpretar a Bíblia pensamentos humanos poderiam contaminar a mensagem original.
Vale a pena notar que as pessoas que afirmam que a Bíblia não precisa ser interpretada às vezes estão afirmando isso por causa de preocupações sinceras. Vamos examinar três destas preocupações.
  1. Alguns tem a preocupação de que alguém poderia tentar se tornar intermediador oficial da Palavra de Deus.
Uma preocupação que algumas pessoas tem é por causa do medo de que alguém possa tentar se posicionar entre o Cristão e Deus como intermediador na forma de um intérprete oficial. Efetivamente, isto já aconteceu entre certas denominações nos primeiros séculos depois de Cristo. Até hoje, há grupos em que uma interpretação “oficial” é dada por alguns líderes e é esperado que todos os membros aceitem esta interpretação “oficial”.
Segundo esta preocupação, dizer que a Bíblia precisa ser interpretada é praticamente igual a dizer que o homem comum não tem acesso por meio da Bíblia a Deus Pai. Mas este raciocínio teria razão apenas se disséssemos que nenhuma parte da Bíblia poderia ser compreendida sem a ajuda da interpretação. São poucos os interpretes hoje em dia que ousaria tal afirmação.
A verdade é que o que é de mais importante na Bíblia, o evangelho puro e simples, é tão simples que pode ser compreendida por qualquer pessoa com as condições básicas de lógica e raciocínio. O evangelho foi divulgado no começo apenas verbalmente e até hoje continua sendo a mesma história simples e poderosa. Mas, isto não muda o fato de que há partes da Bíblia que são difíceis mesmo de compreender. Nestes casos, sim, precisamos de pessoas treinadas e preparadas para interpretar aquela mensagem.
O próprio apóstolo Pedro afirma isto em relação às cartas do apóstolo Paulo quando ele diz, falando de Paulo: “… como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas cousas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam…” (2 Pedro 3:15b – 16 ARA).
Aqui vemos Pedro afirmando três verdades importantes:
  1. Nem tudo nas cartas de Paulo era complicado, mas –
  2. Há certas coisas “difíceis de entender” nas cartas dele.
  3. Sempre existe a possibilidade de alguém “deturpar” a Palavra de Deus (ou seja, corromper ou perverter). Se a Palavra de Deus fosse inteiramente simples e clara para compreender, jamais seria possível alguém deturpá-la.
Se o próprio apóstolo Pedro, com todo seu conhecimento e experiência, poderia dizer que havia coisas nas cartas de Paulo que até ele admitia serem difíceis de entender, então é para ser esperado que um Cristão leigo e sem treinamento hoje teria também dificuldade em entender estas e outras coisas. Devemos lembrar aqui, que Pedro, diferente de nós hoje, não tinha que lidar com as mesmas diferenças de cultura ou língua quando ele lia as cartas de Paulo.
Estas barreiras que dificultam a compreensão de qualquer obra escrita são enfrentadas por todo Cristão que lê a Bíblia hoje em dia. Se o apóstolo Pedro tinha dificuldade em entender Paulo quando falava numa língua conhecida por ele, na sua própria cultura nativa, quanto mais difícil será para um Cristão dois mil anos depois numa outra língua e cultura muito distante daquela?
Também, devemos lembrar que sempre que um evangelista, missionário ou pastor prega uma mensagem para a igreja, ele já passou por um processo de interpretar a mensagem de Deus para daí formular o conteúdo da sua pregação. A única maneira de evitar qualquer interpretação seria se o pregador apenas lesse alguma passagem sem comentários. Na verdade, nem isso seria totalmente sem interpretação, porque o próprio ato da ênfase verbal é passível, por mais sutil que seja, de uma forma de interpretação.
Lendo a seguinte frase do Salmo 23 com a ênfase nas palavras em itálica podemos notar uma diferença de interpretação devido esta ênfase.
            – O Senhor é o meu pastor e nada me faltará.
            – O Senhor é o meu pastor e nada me faltará.
            – O Senhor é o meu pastor e nada me faltará
Também, lembramos que, mesmo lendo o texto com o mínimo de ênfase nosso pregador ainda não escaparia do processo de interpretação desde que ele esteja lendo uma versão da Bíblia que fora uma tradução. Vamos examinar isto em mais detalhes um pouco mais adiante, mas é válido notar aqui, que toda e qualquer tradução passou por um processo de interpretação por parte dos tradutores e portanto aquele que lê a Bíblia fora o hebraico e grego original, quer queira, quer não, está sujeito àquele processo de interpretação.
Exemplos de traduções infelizes:
1 Cor 6:10:
NVI
“nem ladrões, nem avarentos, nem alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o Reino de Deus.”
ARA
“nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus.”
Heb 13:17
NVI
Obedeçam aos seus líderes e submetam-se à autoridade deles….
ARA
Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles;…
(A palavra traduzida “autoridade” na NVI não consta no original.)
Podemos ver como as traduções necessariamente interpretam a Palavra e podem levar os leitores a uma conclusão equivocada. Não podemos deixar de usar traduções. Mas, não devemos confiar em nenhuma tradução como completamente perfeita. É por isso que há necessidade de quem interpreta a Palavra. É por isso que é necessário reconhecer que, mesmo usando apenas a Bíblia, estamos sendo influenciado por decisões de interpretação, pois toda tradução é o fruto do processo de interpretação. Então, não há como escapar da necessidade de interpretação.
Sendo assim, é melhor o Cristão se preparar para lidar com a necessidade de interpretação. Podemos concluir também que, apesar de haver a necessidade de interpretação, não precisamos e nem devemos admitir que alguém se torne o intérprete oficial. A melhor proteção contra isso é o Cristão se preparando para examinar e confirmar as traduções e interpretações que ele certamente vai ouvir. Sendo assim, como os Bereanos que vamos avaliar tudo que ouvimos e verificar se o ensino e a doutrina que estamos recebendo é de fato a plena verdade de Deus.
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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

É difícil resolver o problema dos outros.

É chegado mais um ano. 2018 está vindo com toda força, querendo nos trazer, paz, saúde e muita felicidade, um novo ciclo.

Entre o natal e a virada de ano, eu costumo realizar as minhas lições aprendidas. O que de fato eu aprendi com o ano que se passou e o que posso fazer para melhorar no próximo ano.

Neste momento, eu sempre me apoio na retrospectiva de tudo o que me aconteceu, o que eu achei importante e em Jesus Cristo, através de sua palavra.

Faz um certo tempo que meu coração me fala sobre como fazer as pessoas me entenderem, como eu poderia fazer com elas pensassem da mesma maneira que eu, como eu poderia ajudar as pessoas a crescer, como eu poderia resolver o problema delas?

Pois, sendo eu, empresário, tenho em mente que, se meu pessoal ou as pessoas que estiverem a minha volta crescerem, eu também cresço e consequentemente a empresa cresce, pois todos no mesmo foco e união, os problemas ficam mais fáceis de se resolver no dia a dia. Mas, passam-se os dias e eu fico cada vez mais frustrado, pois não consigo alcançar algumas pessoas.

Então, num determinado momento de minha meditação, eu me lembrei de um artigo que tinha lido na internet (https://thoughtcatalog.com) e lendo a Bíblia, Jesus, colocou em meu coração a palavra que está no Livro de São Marcos, Capítulo 12 verso 31. Jesus afirma: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo...”

Mas o que de fato é: “amar ao Próximo como a ti mesmo? ”

Sobre o Texto: “a Ti mesmo...” Não se tem muito o que saber, basta entendermos que todo o amor ao próximo que damos, gostaríamos de recebe-lo na mesma medida (proporção). Mas, devemos nos amar primeiramente para depois podermos amar ao próximo. O sentimento de satisfação que temos ao ajudar o outro é realmente muito gratificante. Nos sentimos interiormente numa grande paz e o sorriso das pessoas ao nosso redor cria uma nuvem de positividade da qual nunca queremos nos afastar. Isto remete ao receber em troca, o amar a si mesmo.

Mas e quanto ao Amar? Bem, me aprofundando no texto em uma pequena exegese bíblica, encontro que para a palavra “Amarás”, do texto bíblico, o termo grego: αγαπαω agapao, talvez de agan (muito), trata de ter um enorme respeito com as pessoas, de recebe-las com alegria, acolher, gostar muito, de amar eternamente e com respeito as coisas, estar satisfeito.
Mais a fundo, encontro a relação com outra forma de amor, o Phileo: φιλεω phileo, que São Paulo cita muito forte nas escrituras, que é aquele que ama, aceita, gosta, trata carinhosamente ou cuidadosamente, que gosta de fazer tudo e nada quer em troca. Este amor, está mais relacionado com Deus, pois ele tem o maior poder para fazer isto, o ser humano ainda está aprendendo a usar o amor Phileo.

Enfim, gostamos de respeitar o outro, ajudá-lo, tentar ser seu amigo, talvez até resolver algum de seus problemas. Mas, começo a chegar a algumas conclusões. Tentar resolver os problemas dos outros pode causar muitos transtornos e ainda impedir o crescimento de quem você ama. Vejamos como cheguei a isto:

As pessoas não são iguais a min, são diferentes.
Toda vez que começo a pensar “a vida desta pessoa seria muito melhor se…”, eu lembro que essa é a vida dela e não a minha. Por mais que eu queira ajudar, a perspectiva dela sobre o mundo é diferente da minha e projetar expectativas sobre o outro não vai me ajudar nem um pouco.

Não posso resolver o problema de pessoas que não querem ter seus problemas resolvidos. 
Existem pessoas que, literalmente, cultivam seus problemas e se apegam a eles de tal maneira que já não conseguem mais se ver sem aquele algo sobre o qual se lamentar. Quanto a mim… bem, eu não posso mudar ninguém. A única coisa que eu posso fazer é compreender, aceitar e amar essa pessoa do jeito que ela é. 

Tentar “resgatar” alguém pode te fazer ir para o fundo. 
E a partir do momento que eu afundar em problemas que não são meus, eu os transformo em meus também. A gente se envolve com tanta profundidade que passa a viver em função da vida do outro, esquecendo-se de si mesmo (Amar...como a ti mesmo). Resultado? Ninguém ajuda ninguém! 

Potencial significa “poder”, não “querer”. 
Não é porque achamos incrível a maneira como determinada pessoa se expressa que vamos tentar convencê-la de que está na profissão errada. Ou então que deveria fazer um intercâmbio. Ou que poderia abrir um novo negócio. Existe uma teoria básica da Administração ao qual sugere que devemos sempre observar os nossos colaboradores para ver no que eles se encaixam melhor dentro de uma empresa. Esta pessoa pode ser muito boa em números, mas está entregando material no almoxarifado. Se pudermos realoca-la ótimo. Mas temos que ter o maior cuidado. Não é porque esta pessoa é muito inteligente que precisamos ter a “obrigação de amigo” de informá-la que ela simplesmente não pode cursar uma graduação tão simples ou abandonar o mestrado ou deixar a presidência de uma grande empresa. Mais uma vez: a vida não é nossa. Portanto, não posso cuidar dela! 

Ajudar não significa resolver. 
Podemos ajudar um amigo (a), companheiro (a) ou familiar com uma boa conversa, demonstrando como somos gratos por sua companhia, convidando-o para almoçar e até dizendo o quão especial ele (a) é na nossa vida. O que eu não posso é me sentir na obrigação de tomar as rédeas da vida da pessoa e organizá-la sozinho; mesmo que ela queira, mesmo que ela peça, mesmo que ela implore. 
Com essa atitude eu só irei desestimulá-la a acreditar no seu próprio potencial e vou torná-la dependente de mim para sempre. Se eu desejo isto creio que está na hora de procurar um psicólogo – isso pode ser carência! 

Eu não preciso que o outro seja feliz para eu ser feliz! 
Parece simples, mas pode ser que o meu desespero para ajudar as pessoas seja reflexo do depósito de expectativas que eu coloco sobre ela. Eu tenho que me lembrar: Eu não preciso que o outro seja feliz para eu ser feliz! 
É claro que compartilhar alegrias é uma forma maravilhosa de viver nossas relações, mas como já sabemos, felicidade não vem de fora: ela parte de dentro de nós. Se a pessoa a quem eu quero ajudar não consegue ser feliz, isso é um problema dela, não meu. 
Por mais que doa ler isso, devemos respirar fundo, olhar para dentro e simplesmente sorrir sinceramente para nós mesmos. (Insisto no: Amar ao próximo como a si mesmo). Se nós formos capazes disto, seremos capazes de inspirar quem a gente ama a ser feliz como nós, e isso vale muito mais do que servir de muleta aos outros. 

Cuidar de si mesmo ajuda mais do que você imagina! 
Cuidar de si mesmo exige tempo e dedicação. Podemos até subir na linha do egoísmo. Não adianta varrermos os nossos próprios problemas para debaixo do tapete e correr na casa de alguém para lhe dar conselhos. Esta hipocrisia só vai nos fazer adoecer, o nosso amigo e à nossa relação. 
Sejamos sinceros, vamos encarar as nossas dificuldades, olhar para o nosso interior e, quando tudo estiver em harmonia (não necessariamente perfeito), a nossa energia positiva será o suficiente para inspirar todos ao nosso redor. 

Problemas não são necessariamente coisas ruins. 
Eles nos ajudam a crescer e a entender que a vida não é um mar de rosas. É preciso ter o discernimento para perceber que coisas ruins acontecem e que ninguém é obrigado a ser feliz o tempo inteiro. 
A partir do momento que entendermos isso, percebemos que as dificuldades precisam acontecer para que nós amadureçamos e aprendamos a desapegar: afinal de contas, ao contrário do que a nossa sociedade consumista prega, nada é para sempre. Tem um ditado muito interessante que fala: “
Nascemos sem trazer nada, morremos sem levar nada. E no meio disto, brigamos por algo que não trouxemos e não levaremos”. Precisamos encarar com outra ótica os problemas que nos acontecem.

Não podemos mudar as pessoas, apenas amá-las. 
Vamos nos lembrar: “Amar ao próximo...”. Aceite isso. Consequentemente, não podemos mudar as pessoas, nem resolver seus problemas, muito menos julgar o que é bom ou não para elas. Elas mesmo vão se adaptar a nós ou ao nosso meio social, intelectual e outros. Podemos apenas direcioná-las, contar um pouco da nossa experiência, tentar ensinar o que é certo ou errado. Mas lembrando que o que pode ser certo para a minha pessoa, não necessariamente é certo para aquela pessoa. Devemos ajudar apenas se formos cogitados e mesmo assim, devemos agir com a maior cautela.
Se nos lembrarmos do ditado popular “cada macaco no seu galho”, podemos pensar apenas em dar uma passadinha no galho do colega para doar um pouquinho do nosso amor e voltar logo para o nosso próprio para não quebrar o de ninguém e acabar estrebuchado no chão!


Christo Nihil Praeponere.

domingo, 16 de outubro de 2016

AFINAL, DEUS ME AMA?

Quando comecei a fazer teologia sempre existia um vazio em minha alma. Uma pergunta que sempre incomodava: afinal o que é Deus: Porque ele existe? O que de Fato Deus quer para as nossas vidas?

Meu querido amigo e professor, padre Danilo, sempre me dizia: “Everton, estude muito, medite bastante na palavra e nas coisas de Deus, pois estou ansioso para ver você fazendo a teologia”.

Fazer a teologia, o que significava isto, o que era fazer a teologia.
"Tira as sandálias de teus pés, porque este lugar em que estás é uma terra santa" (Ex. 3:5) soa aos ouvidos de quem pensa aproximar-se do estudo da teologia. Só nessa atitude de reverência religiosa consegue-se penetrar o mundo da teologia. Nisso ela difere grandemente das outras ciências. O Círculo brilhoso (halo) sagrado envolve-a, e, se ele se desfaz, termina-se por praticar teologia secularizada. E esta, por sua vez, acaba passando atestado de óbito. 

O estudo da teologia hoje navega por mares bravios, mas fascinantes. Talvez pudesse ter sido mais fácil estudar teologia em outras épocas, em que o barco da Igreja quase parara nas calmarias da cristandade ou neocristandade. Depois que os ventos da modernidade e pós modernidade açoitam o pensamento religioso, ora ferindo-o em sua raiz, ora espalhando suas sementes por todas as partes, a teologia, ao mesmo tempo, viu-se postergada à condição de produto supérfluo da sociedade industrial burguesa e sumamente desejada por novo mercado religioso. 

Com o passar do tempo, meu amadurecimento nas coisas de Deus se tornou mais amplo e os anos de meditação e estudos filosóficos, históricos e teológicos, me fizeram entender o que é fazer teologia. Fazer teologia é entender Deus nas nossas vidas, como ele se movimenta através de seu povo, como ele nos ama de fato. Ela extrapola o dogma, confronta o mesmo para tentar elucidar a equação de Deus em nossas vidas. Ela é vida, amor ao próximo, paz e justiça.

Existe uma enorme dúvida no ser Humano. “Afinal Deus me ama? ” Se nossa vida religiosa parece um vazio e se não temos certeza do amor de Deus nos momentos em que mais precisamos, está na hora de entendermos o significado do amor divino – um amor profundo, libertador, sem limites e imposições.

Muitas pessoas acreditam que precisam viver de acordo com as Leis de Deus para receberem Seu amor. Então seguem em uma busca desesperada pela perfeição, impondo-se metas inalcançáveis, que as deixa frustradas e sem esperanças.

Outras levam para a vida religiosa a regra da “troca de favores” que aprendemos desde a infância. Ou seja, esforçam-se para agradar a Deus, acreditando que assim terão suas preces atendidas. E, quando alguma coisa não dá certo, acham que não se emprenharam o suficiente. 

E há ainda aquelas que se dedicam a atividades religiosas e à pratica do bem apenas para tentar se livrar do sentimento de culpa.

Precisamos evitar estas atitudes equivocadas e entender o que realmente Deus espera de nós.
Não é fácil, pois como tentar entender de fato o que Deus quer para nossas vidas. Somente tempo, meditação na palavra e muito estudo e discernimento. Resumindo, muita vida com Deus.

Além da palavra de Deus (Bíblia), muitos documentos e livros me ajudaram a entrar neste processo. “Existe Deus? – De Alfredo Maria Mazzei”, invoca o raciocínio que: Se cristo é divino, se Cristo é filho de Deus, então isto quer dizer que Deus existe. A admissão da divindade de Cristo levou o autor em linha reta à admissão da existência de Deus, sem necessidade de recorrer ao estudo das provas metafísicas: as provas de Santo Anselmo e Tomás de Aquino. Neste livro, o formidável problema da existência de Deus é tratado sob todos os pontos de vista, do filosófico ao científico.

“Introdução à Teologia - Perfil, Enfoques, Tarefas – De J. B. Libanio e Afonso Murad”, demonstra que todo saber tem seu mistério. E no mistério deve-se ser iniciado. O saber teológico vê-se envolvido, mais que qualquer outro, por véu misterioso, por tratar-se, em última análise, de conhecimento a respeito do mistério dos mistérios: Deus. 

E o simples e elucidativo livro de “Jung Mo Sung – DEUS: Ilusão ou realidade? ” Reconhece, ao invés de negar, os questionamentos sobre a existência de Deus e a impossibilidade que muitos sentem de experiência-lo. Falando sobre as injustiças humanas, sobre a desumanização provocada pela sociedade de consumo, o Autor chama a atenção do jovem para a necessidade de uma imagem de Deus feita de amor e solidariedade, para uma religiosidade mais consciente e aberta ao próximo.

Por vezes, ficamos tentando pedir a Deus o que julgamos mais conveniente. Mas devemos entender que, somente confiando em sua Sabedoria e deixando que Ele decida o que é melhor para nossas vidas, encontraremos o caminho para viver na plenitude de seu amor.


Christo nihil praeponere
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